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segunda-feira, 29 de junho de 2026

A CRISE DO AGRO ERA PREVISÍVEL (?) (Final) (Prof. Dr. Argemiro Luís Brum)

Dentre os motivos da crise brasileira do agro, cuja identificação iniciamos na coluna passada, ainda se torna importante elencar que: 6) a grande maioria dos produtores rurais não faz uma real contabilidade agrícola para tomar decisões sobre investimentos, produção etc, mantendo a ilusão de que a crise não virá “porque os governos não deixarão já que o agro é essencial ao Brasil”; 7) por outro lado, os governos acostumaram mal o setor, seguidamente dando “perdão” de dívidas e/ou prorrogando por longo tempo prazos de pagamento, porém, com os juros continuando a se acumular; 8) ao mesmo tempo, na medida em que os produtores rurais não “acreditaram” que o “boom” de preços das commodities, iniciado em 2022 por motivos externos e voláteis, poderia se reverter, aumentaram seu endividamento em um momento em que os juros indicavam uma tendência de aumento, devido a inflação. Assim, muitos produtores ampliaram suas áreas plantadas e modernizaram estruturas contando com níveis de endividamento mais altos, o que se tornou insustentável quando o cenário do mercado e de juros se reverteu; 9) o encarecimento do crédito limitou o acesso a financiamentos e aumentou significativamente o peso das dívidas rurais, forçando muitos produtores a renegociarem contratos, a juros mais elevados, ou recorrerem à recuperação judicial para evitar a falência, gerando um círculo vicioso estrutural; 10) enfim, o custo de um Estado que gasta mais do que arrecada, e gasta mal (por décadas, no caso do agro brasileiro, muitas vezes os recursos disponibilizados para crédito de custeio foram usados para outros fins, sem controle estatal) chegou também ao setor primário, deixando grande parte dos produtores inadimplentes e sem acesso a novos créditos. Como sempre, nesta história, muitos serão excluídos, concentrando ainda mais a riqueza. Uma realidade que, para ser revertida, exige muito conhecimento de gestão de negócios e responsabilidade financeira. Mas, também, é preciso uma política pública que pense o setor no longo prazo, ligada às novas tecnologias e inovações, não se limitando apenas a práticas conjunturais, tipo Planos Safras. E o Projeto de Lei (PL 5.122/2023) entra nesta lógica, se vier apenas irá aliviar momentaneamente o problema. Hoje, o setor precisa é de mudanças estruturais, que lhe dê condições de enfrentar esta nova economia.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

A CRISE DO AGRO ERA PREVISÍVEL (?) (I) (Prof. Dr. Argemiro Luís Brum)

Nos últimos dois anos, em particular, o agronegócio brasileiro em geral e o gaúcho em particular vêm enfrentando uma crise sem precedentes. No Brasil, os leilões de propriedades rurais retomadas por credores crescem rapidamente, em um contexto em que as dívidas com problemas de pagamento no crédito rural mais que quadruplicaram, chegando a R$ 171,2 bilhões no início de 2026. Ao mesmo tempo, a parcela de empréstimos em atraso no crédito rural subiu para 19,6%, contra 5,5% dois anos antes. Enfim, o volume desses leilões chegou a 14.219 propriedades rurais em 2025, com aumento de 30% sobre o ano anterior, e os pedidos de recuperação judicial (antiga concordata) do setor agrícola cresceram 56% no ano passado, após mais do que dobrarem em 2024 (cf. Serasa Experian in: JM, 17/06/26, p.12). Tal crise não pode ser imputada unicamente aos problemas climáticos, embora eles venham ganhando importância. Por trás da mesma, na maioria dos casos, estão fatos alertados, mas muitas vezes ignorados. Dentre eles, pode-se citar: 1) a falta de crédito agrícola, acompanhada de controle mais rígido do sistema e de juros elevados (após a crise mundial de 2007/08 e da política de crédito fácil adotada pelo Brasil, para animar o setor – Programa Mais Alimentos por exemplo –, era natural que uma correção de rumo deveria ser tomada, particularmente após a grande recessão nacional de 2014-2016); 2) esta realidade, seguida da pandemia, da guerra Rússia x Ucrânia e, especialmente, do aumento constante do déficit público brasileiro, vez a inflação disparar. A arma do juro foi acionada, agora atingindo também o setor primário; 3) a elevação extraordinária dos preços mundiais das commodities, a partir de 2022, que não era sustentável, por algum tempo escondeu o problema do alto custo de produção. Muitos alertas surgiram de que isso não iria durar, mas foram seguidamente ignorados;  4) a velha máxima do mercado agropecuário se fez sentir (os preços agrícolas sobem e os insumos acompanham, e até sobem mais, na sequência os preços agrícolas recuam, porém, os custos baixam bem menos, deixando um rombo nas contas das propriedades); 5) a grande maioria dos produtores rurais brasileiros não possui poupança suficiente, vivendo de rolagens de empréstimos, o que os deixa fragilizados diante de mudanças econômicas estruturais como esta. (segue)

quinta-feira, 18 de junho de 2026

ANÁLISE SEMANAL DOS MERCADOS DA SOJA, MILHO E TRIGO

 12/06/2026 a 18/06/2026


Já está disponível o mais recente informativo da CEEMA-UNIJUÍ.

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segunda-feira, 15 de junho de 2026

INFLAÇÃO CONTINUA PREOCUPANDO (Prof. Dr. Argemiro Luís Brum)

Infelizmente, mesmo com juro básico em 14,5% ao ano, o qual tem o objetivo de reduzir a inflação para o centro da meta (3% ao ano), a alta dos preços no país continua preocupando. Nestes últimos quatro meses, a pressão da guerra no Oriente Médio, através do aumento nas cotações dos combustíveis e outros produtos, acabou sendo um elemento que alimentou a alta de preços para além do esperado. Assim, os preços da construção civil e dos alimentos acabaram pesando sobre o índice, mesmo que os transportes tenham aliviado a situação devido as ações de controle do governo, em especial sobre o diesel e a gasolina. Desta forma, depois de alguns meses abaixo do teto da meta (4,5% ao ano), o que permitiu ao Banco Central realizar duas pequenas baixas de 0,25 ponto percentual na Selic, maio nos trouxe um índice inflacionário de 0,58%. O mesmo foi o mais alto, para maio, nos últimos cinco anos e elevou o acumulado de 12 meses para 4,72%, o que o fez sair do limite de tolerância (teto) que o governo estabeleceu. A última vez que isso havia ocorrido foi em outubro/25. Tal elevação em maio, mais uma vez, esteve presente, em especial, nos alimentos e bebidas (1,33%) e na habitação (1,22%). Lembrando que o governo criou um novo sistema para considerar o momento de rompimento do teto. O mesmo é descumprido se a inflação estourar o intervalo de tolerância por seis meses seguidos (cf. Agência Brasil). Diante disso, e considerando as pressões vindas também das futuras eleições, o mercado está projetando uma inflação final, em 2026, em 5,11%. Ou seja, acima da inflação acumulada de 2025 (4,26%) e de 2024 (4,83%). Aliás, seria a mais alta inflação anual desde 2022. A possibilidade de término da guerra, anunciada nesta semana de forma mais incisiva, se ocorrer, poderá aliviar este cenário, porém, com o Estado brasileiro gastando muito e sempre, o déficit fiscal real (incluindo as rubricas que o governo deixa de fora do cálculo) tem aumentado, o que pressiona a inflação para cima. Em tal contexto, atenção ao anúncio da Selic desta próxima reunião do Copom (16 e 17 de junho). Não será surpresa se o mesmo mantiver a Selic, ou reduzi-la, novamente, em apenas 0,25 ponto percentual, fixando-a em 14,25% aa. Assim, para conter a alta dos preços, o freio à economia continua.

  

quinta-feira, 11 de junho de 2026

ANÁLISE SEMANAL DOS MERCADOS DA SOJA, MILHO E TRIGO

05/06/2026 a 11/06/2026


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segunda-feira, 8 de junho de 2026

O PIB TRIMESTRAL E O NOVO TARIFAÇO DE TRUMP (Prof. Dr. Argemiro Luís Brum)

O PIB brasileiro do primeiro trimestre confirmou a tendência. O resultado de 1,1%, apesar de ser o mais forte em um ano, foi o menor avanço anual para o primeiro trimestre desde 2022. Ou seja, pressionado pelos juros altos, que visam combater a inflação, o crescimento econômico nacional indica uma taxa de 2% nos 12 meses terminados em março/26, contra 2,3% no final de 2025. Confirma-se, portanto, a perda de tração da economia. O crescimento da agropecuária ficou em 2%, lembrando que, para o PIB nacional, o maior impacto desta rubrica se dá justamente no primeiro trimestre. A indústria conseguiu crescer 1%, o que é positivo dada a sua atual fragilidade e os serviços ficaram em apenas 0,5%, destacando que 70% de nossa economia depende do comportamento dos mesmos na atualidade. Enfim, o crescimento dos investimentos, que atingiu 3,5%, infelizmente precisa ser relativizado pois apenas recuperou o tombo ocorrido no trimestre anterior, quando perdeu 3,4%. E o quadro, salvo surpresas, deverá caminhar assim no restante do ano, com expectativa de encerrarmos 2026 ao redor de 1,8% de PIB. Mas ele pode piorar, já que o governo dos EUA, em sua contínua guerra comercial contra o mundo, acaba de ameaçar aplicar a um grupo de produtos brasileiros uma tarifa de 25%, seguida de outra de 12,5%, alegando os mais diversos motivos, muitos deles risíveis, hipócritas e sem nenhuma consistência comercial. Se as mesmas forem aplicadas, a partir de 15 de julho, deveremos exportar menos (não é fácil substituir rapidamente um mercado por outros mercados), gerar menos empregos e menos PIB no final. O prejuízo à Nação brasileira, provocado por questões políticas que todos sabemos de onde vêm, é evidente. Mas, a ação dos EUA também tem uma conotação geopolítica. Neste caso, Trump tenta evitar o fortalecimento das relações comerciais e econômicas em geral dos países atingidos pelo tarifaço, dentre eles o Brasil, para com a China. Uma contradição absoluta, pois são exatamente as ações de Trump que estão apequenando os EUA, fazendo o dólar perder importância e jogando o mundo nos braços da China, a qual agradece o presente e, graças a sua economia pujante, age fortemente para ganhar espaços no cenário global, inclusive se posicionando como arauto do livre-comércio e defensora do multilateralismo internacional. 

quinta-feira, 4 de junho de 2026

ANÁLISE SEMANAL DOS MERCADOS DA SOJA, MILHO E TRIGO

 29/05/2026 a 04/06/2026


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segunda-feira, 1 de junho de 2026

ARTIFICIALIDADE DOS PREÇOS DO DIESEL E DA GASOLINA (Final) (Prof. Dr. Argemiro Luís Brum)

Na sequência da coluna passada temos, em quarto lugar, que o governo federal assume obrigações de reduzir preços sem ter cacife fiscal para isso, fato que o obriga a exigir dos Estados da Federação uma contribuição ao “pacote”. Estados estes que já estão altamente endividados. Lembrando que a margem fiscal da União é baixíssima, pois suas despesas obrigatórias ultrapassam 90% das despesas totais (outro descalabro estrutural). Portanto, a conta virá salgada para a Nação logo adiante. Em quinto lugar, segundo especialistas, seria mais acertado direcionar políticas de apoio ao público mais afetado, sem espalhar as medidas para toda a Nação e sem mexer com os preços artificialmente. Além disso, poderia ser criado um fundo de estabilização com os recursos dos royalties do petróleo exportado por nós, visando reduzir a volatilidade dos preços dos combustíveis (vem-se falando nesta possibilidade, mas de concreto pouco se tem). Em sexto lugar, enquanto se tenta revogar a lei econômica da oferta e demanda por aqui, fez-se um erro estrutural em 2023, com o rompimento da Paridade de Preços de Importação dos derivados de petróleo (PPI). Dentre outras coisas, tal medida faz com que “o preço interno deixe de sinalizar a escassez relativa do produto. Com isso, importadores recuam, o mercado pode vir a sofrer desabastecimento, produtores fazem estoques ou diminuem a produção, refinarias não ampliam a oferta, e o país perde investimento e relevância no tabuleiro global”. Em sétimo lugar, cabe a pergunta: se o aumento do preço internacional do diesel foi, entre 13/2/2026 e 27/3/2026, de R$ 2,64/litro, e como a Petrobras aumentou o preço do diesel no mercado em apenas R$ 0,38/litro, quem está pagando a diferença entre o preço interno e o custo de oportunidade (preço externo)?”. Em oitavo lugar, “se o Brasil fosse autossuficiente na produção e no refino, e supondo que as refinarias fossem maximizadoras de lucro, como ocorre nos EUA, o país gozaria de soberania energética, deixando de ser vulnerável quanto a desabastecimentos, desde que o preço no mercado interno seguisse a PPI. Se a busca pela autossuficiência energética é muito bem-vinda, respeitar a PPI é uma política igualmente desejada.”. Enfim, “se a União fosse dona de todas as refinarias do país, o preço interno também não poderia ser menor do que o externo, porque, se fosse, “alguém pagaria a conta” e voltar-se-ia aos erros elencados anteriormente ao repetir velhas medidas de curto prazo, sem atacar a questão da volatilidade do preço do petróleo e de seus derivados de forma estrutural”. Ou seja, temos condições de nos tornarmos uma potência energética que venha a beneficiar a todos, porém, enquanto continuarmos adotando medidas populistas, equivocadas e temporárias, essa possibilidade fica no terreno da utopia (cf. Schmidt, C.A.J. Conjuntura Econômica, FGV, abril/26, pp. 28-31).

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