Em novembro de 2025 o governo Trump divulgou sua estratégia para a segurança nacional (National Security Strategy). Nela aparece a expressão “realismo flexível” (cf. Conjuntura Econômica, FGV, junho/26). No texto, a interpretação da mesma, dentre outros aspectos, deixa claro que “não se descarta pressionar os parceiros para que sejam assegurados os interesses dos EUA”, seguindo a Doutrina Monroe de 1823 “América para os americanos”. Na prática leia-se “América para os EUA”. Hoje, como antes, a ideia é “impedir, independente de ideologias, que países, em especial os de fora do hemisfério, detenham recursos estratégicos e quaisquer outros ativos que ameacem a segurança dos EUA”. O documento cita que é necessário garantir comércio equilibrado (para quem?); acesso a materiais críticos para as cadeias de suprimento; garantir o domínio da infraestrutura energética e do setor financeiro, destacando a “importância de os parceiros na América privilegiarem bens, serviços e tecnologias dos EUA”. Muito à frente daqueles que ainda somente enxergam ideologias, os EUA não estão mais preocupados com elas e sim com a manutenção do poder econômico e tecnológico custe a quem custar. Tanto é que o documento deixa claro que “o país usará todos os meios para dissuadir os países do continente a não privilegiarem outros parceiros, pois os EUA devem ser o principal parceiro”. É neste contexto que deve ser visto o tarifaço de Trump mundo afora e sobre o Brasil; a invasão à Venezuela, mantendo o mesmo regime lá presente; a guerra com o Irã; etc. Ou seja, estamos diante de mais uma versão do velho imperialismo usado por diferentes países mundo afora durante a história da humanidade. Em termos mais objetivos, no caso do tarifaço, há um elemento econômico e fiscal importante em jogo. Os EUA sempre fizeram o resto do mundo pagar a conta de seu crescimento econômico e modo de vida, gastando mais do que arrecada e transferindo ao mundo a conta. Hoje, a dívida pública estadunidense atinge a US$ 39,6 trilhões, equivalente a 129% do PIB. Diante disso, a venda de títulos públicos para o mundo não parece ser mais suficiente (a China é o maior comprador dos mesmos). Assim, o governo Trump passou a contar com a arrecadação proveniente das tarifas para ajudar a pagar a conta (somente em 2025 a arrecadação com esta medida protecionista de comércio ficou entre US$ 236 e US$ 287 bilhões). O Brasil paga esta conta, dentre outras coisas, com prejuízos comerciais em diversos setores produtivos (fumo, calçados, móveis, celulose e papel, automóveis, borracha e material plástico etc), com o consequente desemprego setorial, menos crescimento econômico e ameaça as suas riquezas naturais, hoje particularmente as chamadas “terras raras”, elemento central para o novo mundo tecnológico que se instala. Diante do exposto, é provável que futuros governos estadunidenses decidam por não reverter o tarifaço. E têm “patriotas” brasileiros apoiando isso, ignorando que “governos passam, estragos ficam” (cf. ZH, 30/07/2026, p.2).
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segunda-feira, 17 de agosto de 2026
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