Nos últimos dois anos, em particular, o agronegócio brasileiro em geral e o gaúcho em particular vêm enfrentando uma crise sem precedentes. No Brasil, os leilões de propriedades rurais retomadas por credores crescem rapidamente, em um contexto em que as dívidas com problemas de pagamento no crédito rural mais que quadruplicaram, chegando a R$ 171,2 bilhões no início de 2026. Ao mesmo tempo, a parcela de empréstimos em atraso no crédito rural subiu para 19,6%, contra 5,5% dois anos antes. Enfim, o volume desses leilões chegou a 14.219 propriedades rurais em 2025, com aumento de 30% sobre o ano anterior, e os pedidos de recuperação judicial (antiga concordata) do setor agrícola cresceram 56% no ano passado, após mais do que dobrarem em 2024 (cf. Serasa Experian in: JM, 17/06/26, p.12). Tal crise não pode ser imputada unicamente aos problemas climáticos, embora eles venham ganhando importância. Por trás da mesma, na maioria dos casos, estão fatos alertados, mas muitas vezes ignorados. Dentre eles, pode-se citar: 1) a falta de crédito agrícola, acompanhada de controle mais rígido do sistema e de juros elevados (após a crise mundial de 2007/08 e da política de crédito fácil adotada pelo Brasil, para animar o setor – Programa Mais Alimentos por exemplo –, era natural que uma correção de rumo deveria ser tomada, particularmente após a grande recessão nacional de 2014-2016); 2) esta realidade, seguida da pandemia, da guerra Rússia x Ucrânia e, especialmente, do aumento constante do déficit público brasileiro, vez a inflação disparar. A arma do juro foi acionada, agora atingindo também o setor primário; 3) a elevação extraordinária dos preços mundiais das commodities, a partir de 2022, que não era sustentável, por algum tempo escondeu o problema do alto custo de produção. Muitos alertas surgiram de que isso não iria durar, mas foram seguidamente ignorados; 4) a velha máxima do mercado agropecuário se fez sentir (os preços agrícolas sobem e os insumos acompanham, e até sobem mais, na sequência os preços agrícolas recuam, porém, os custos baixam bem menos, deixando um rombo nas contas das propriedades); 5) a grande maioria dos produtores rurais brasileiros não possui poupança suficiente, vivendo de rolagens de empréstimos, o que os deixa fragilizados diante de mudanças econômicas estruturais como esta. (segue)
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segunda-feira, 22 de junho de 2026
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