Estudo da FGV, a partir de dados da Serasa (Conjuntura Econômica, maio/26, pp. 54-63), mostra que 82,8 milhões de brasileiros estavam inadimplentes em março/26. O Desenrola 2.0, pelos seus critérios, atinge apenas 27,7 milhões de pessoas daquele total. São consumidores que não têm poupança e tomam crédito sem garantia, portanto, mais caro. No total, são R$ 100 bilhões em contas atrasadas. Lembrando que 70% da população ocupada no país ganha até dois salários mínimos, sendo que do total do crédito concedido para pessoa física, no sistema financeiro, esse grupo representava 25,4% (o percentual passa a 34% no rotativo do cartão de crédito, com juro superior a 400% ao ano, com a inadimplência desse grupo chegando a 67%). E cada CPF carrega a média de quatro dívidas atrasadas com valor médio somado de R$ 6.720,00 (mais do que o dobro da renda mensal da grande maioria). Tem-se, ainda, que 85% das novas negativações vieram de consumidores que já haviam estado inadimplentes, com um intervalo médio de 74 dias entre uma dívida negativada e outra. Além disso, 42% dos inadimplentes em 2026 já estavam nessa condição há 10 anos. São 34 milhões de brasileiros presos nesta realidade, onde o Desenrola, sozinho, não consegue romper. Soma-se a isso “a percepção de que atrasar dívidas pode se tornar racional diante da expectativa de futuros programas com grandes descontos, gerando ainda uma sensação de injustiça entre os consumidores que mantêm os pagamentos em dia”. Portanto, o Desenrola 2.0 é um paliativo, pois ajuda no curto prazo, porém, não resolve estruturalmente o problema. O fato de o mesmo ser lançado apenas três anos depois do primeiro “Desenrola” já comprova isso. É preciso ir além, tornando nossa macroeconomia estável, para que se consiga reduzir os juros (para isso, a pressão inflacionária, especialmente movida pelo gasto público sem limites, precisa parar); termos um sistema eficiente de formação, onde a educação financeira ganhe de fato espaço; criarmos regulamentações adequadas para reduzir riscos comportamentais movidos pelas propagandas de compras fáceis, jogos de azar desenfreados e ilusórios etc, revertendo uma realidade onde, hoje, dívidas e despesas diárias já comprometem a renda de 70,5% dos brasileiros, deixando-os longe do bem-estar financeiro.
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